Life Style,  Toronto

3 anos morando em Toronto

Hoje nós estamos completando 3 anos morando em Toronto, mas a minha impressão continua sendo que faz muito mais tempo. Eu acredito que seja a intensidade como tudo continua acontecendo, onde diariamente estamos aprendendo algo novo sobre o idioma, os hábitos e a história do Canadá.

Neste terceiro ano eu percebi que uma paz diferente começou a tomar meu coração e lendo o post sobre o segundo ano morando em Toronto eu percebi o que mudou e por isso, descrevei os mesmos tópicos do ano passado, porém com as mudanças que notei neste ano.

SOBRE O INGLÊS

Esse não foi um ano em que eu não me dediquei a estudar inglês. Acho que o fato de já me sentir confortável para conversar, resolver questões rotineiras na rua, compreender conteúdos em livros ou videos me fez parar de priorizar esse item.
Então, quando comparo minha evolução no inglês em relação ao ano passado, percebi que este ano eu evoluí menos no idioma.
É claro, que com o tempo você vai aprendendo menos coisas novas, mas para quem não é um nativo essa jornada é muito longa.
Isso me fez refletir que preciso voltar a dedicar um tempo para estudar de verdade e não apenas exercitar meu inglês com as atividades rotineiras.

SOBRE A CULTURA CANADENSE

Desde que nos mudamos para cá, eu me apaixono diariamente pela Cultura Canadense. Eu amo a maneira como eles enxergam o Mundo, a maneira como levam a vida, a maneira gentil e respeitosa que tem perante o próximo, além de tantas outras coisas.
Eu me sinto acolhida aqui, amo de paixão a minha cidade, amo a comunidade em que vivo e sou grata por tudo que tenho aprendido com os Canadenses.

É engraçado como de uma maneira bem natural eu passei a me identificar mais com a cultura Canadense do que com a Brasileira.
Acho que o fato de eu ter me aberto para aprender sobre a cultura daqui, sem ficar questionando o porque as pessoas fazem “assim ou assado”, me permitiu tentar fazer as coisas que eu sempre fiz, porém do “jeito dos Canadenses”, me fez enxergar um mundo de novas possibilidades, que muitas vezes possuíam opções mais simples, mais fáceis e/ou melhores do que as que eu cresci fazendo.

Ao mesmo tempo que isso é bom, também começou a se tornar estranho, pois não consigo mais me sentir completamente em casa no Brasil, mas ainda não me sinto completamente em casa aqui, ou seja, me tornei um passarinho sem ninho, onde meu coração se sente em casa no Brasil, mas minha alma se sente em casa no Canadá.

Em todo o caso, eu sigo me esforçando para tornar o Canadá cada vez mais o nosso lar, pois é aqui que vivemos hoje e quanto mais adaptados estivermos, melhor lidamos com o desafio de viver longe de “casa”.

SOBRE A SAUDADE DA FAMÍLIA

No post do nosso segundo ano aqui, eu comentei sobre ter descoberto que o que me faz sofrer com a distância da família é o apego que eu tenho por eles e pelas lembranças de tudo que eu vivi e conquistei no Brasil.
Desde então, eu passei a me dedicar a deixar ir esse apego pelas pessoas e memórias, o que não significa deixar de amá-las, pelo contrário, significa tirar a dor que me faz sofrer (que no caso é o apego) para que fique apenas o amor, no qual me permite ficar genuinamente em paz e feliz ao ver quem eu amo curtindo momentos felizes e não ficar me sentindo culpada ou triste por não poder estar junto.

Nesse quesito eu acho que melhorei muito e tenho sofrido muito menos por estar longe de quem eu amo.
Cada vez mais eu entendo que a vida é uma jornada individual, onde no meio do caminho sempre teremos a companhia de diversas pessoas, seja um familiar, um amigo, um colega de trabalho ou de estudo, um grupo de vizinhos, etc, cada um nos acompanhando numa frequência diferente, sendo uns diariamente ou uma vez no ano e tudo isso por um tempo determinado.
Um exemplo disso, é quando mudamos de emprego e aqueles colegas de trabalho que antes eram tão próximos, naturalmente acabam tendo uma frequência menor nas nossas vidas ou quando criança, quando nossas maiores companhias normalmente são nossos pais, irmãos, primos, avós, etc, e conforme chegamos a adolescência, passamos a sair mais com os amigos do que com os familiares e na vida adulta, voltamos a estar mais com familiares e um pouco com os amigos.

Por mais que eu queira estar com meus familiares e amigos, eu percebi que não faz sentido ficar me torturando e me culpando por isso, pois no fim, essa jornada da vida será sempre individual. Cada um de nós está seguindo o seu propósito, vivendo o que precisa viver e os desencontros não são exclusivos de quem mora fora e sim uma parte natural da vida, onde as pessoas entram e saem (ou reduzem a frequência da companhia) com o desenrolar da rotina, além disso, não dá para ficar se culpando por não estar perto nos momentos difíceis, pois as pessoas vão passar pelos desafios que elas precisam passar e estando perto ou longe não podemos evitar que eles aconteçam e na maioria das vezes não somos capazes de resolver os desafios delas, com isso, não faz diferença o local que estamos, pois a jornada da vida é de fato individual.

ADAPTAÇÃO

No post de 2 anos, eu mencionei neste tópico de adaptação, que o primeiro ano foi basicamente nos instalando a nova vida e no segundo ano, quando tudo estava organizado, eu comecei a sentir falta de ter uma vida social mais ativa pois este item era importante pra mim, uma vez que eu sempre tive uma vida social muito agitada no Brasil, por isso, mencionei que no terceiro ano eu iria me dedicar a fazer mais amigos por aqui.

No entanto, assim como nos estudos, esse não foi um item que eu me dediquei esse ano. Por mais que tivesse mencionado que este era um item importante na minha adaptação, eu percebi que ao me dedicar para curar meu apego pelas pessoas e lembranças, automaticamente esse item perdeu a importância que tinha.

Além disso, eu percebi que eu era muito resistente em aceitar que eu não sou mais a mesma pessoa que vivia no Brasil e que meus hábitos, valores e idéias mudaram e também que as pessoas aqui são culturalmente mais fechadas para novas amizades.
Com isso, eu decidi começar observar o que a vida está tentando me ensinar, afinal não deve ser a toa que o Universo levou uma pessoa extremamente extrovertida e que vivia rodeada de pessoas, para morar num lugar aonde as pessoas são mais reservadas e com isso, ficar mais isolada, né? – Bom, eu particularmente gosto de pensar assim, para tentar aprender com as situações.

Foi então que nesse período eu descobri o quanto era carente e dependente da atenção das pessoas e decidi trabalhar isso em mim para me libertar, desta forma, passei a me conectar muito mais comigo e fui me tornando menos dependente emocionalmente das pessoas.
Isso também me fez descobrir que na verdade eu “usava” as pessoas sem perceber, muitas vezes para fugir dos problemas me distraindo com elas e não porque simplesmente queria estar com elas, pois se assim fosse, eu as encontraria para ouví-las mais e falar muito pouco (ou quase nada).
Outro exemplo, é que ao invés de ficar tentando convencê-las a fazer algo que fosse confortável e cômodo para mim, eu deveria perguntar o que ela gostaria fazer e aceitaria sem hesitar (mesmo que fosse o programa mais chato no pior lugar da cidade), afinal se o objetivo é curtir a cia do outro, nada melhor do que acompanhá-lo em algo que o deixe feliz.
É difícil olhar para si mesmo com verdade, mas tenho certeza que muita gente nem se dá conta do quanto usa as pessoas para fugir de seus problemas, descontar suas frustrações, ou buscá-las para conseguir apoio sobre suas idéias/opiniões pelo simples “prazer” de sentir que tinha razão, entre tantas coisas que mostram que estamos “usando” as pessoas e não apenas apreciando a existência dela.
Foram tantas descobertas nesse ano, que não caberia nesse post. Por isso, vou apenas resumir dizendo que a minha vida social perdeu a prioridade que tinha, pois eu encontrei muito do que eu estava buscando dentro de mim e que hoje, aproveitar o meu tempo comigo e/ou com minha família tem feito mais sentido para mim.

SOBRE VALER A PENA

Mesmo eu tendo melhorado muito a questão do apego, eu ainda tenho aqueles dias difíceis em que a vontade de estar com a minha família aperta muito e dá vontade de deixar tudo para trás e pegar o primeiro avião para São Paulo.
Mas, eu acho que neste ano a vontade de voltar para o Brasil veio com menos frequência e quando vinha, não durava tanto quanto antes.
Como eu mencionei acima, hoje eu me sinto bem dividida, pois somente no Brasil eu sinto amor, pois é lá que estão a maioria das pessoas que eu mais amo e também é lá que está a maioria das pessoas que me amam também.
Sem dúvida, é no Brasil que meu coração se sente bem, no entanto, outra parte de mim, ama a vida que temos em Toronto e eu não falo apenas pela nossa rotina, mas pela cultura e hábitos que estamos rodeados, os quais nos trazem tanta paz interior.
Aqui em casa, a gente costuma dizer que existe uma balança imaginária onde de um lado temos tudo o que nos faria voltar para o Brasil e do outro tudo o que nos faz querer ficar no Canadá e enquanto essa balança estiver pesando mais para ficarmos, então nós continuaremos aqui.
E nesse terceiro ano morando em Toronto, eu posso dizer que tem válido a pena e que nós continuamos encontrando a qualidade de vida que viemos buscar. Por isso, seguimos com nosso plano de viver em Toronto, criar nossos filhos e nos adaptar cada dia mais ao lugar que escolhemos chamar de lar.

Espero que você tenha gostado deste relato do meu terceiro ano morando em Toronto e que de alguma maneira esse texto lhe ajude um pouco a lidar com o desafio de morar fora, longe de tudo que mais ama e fora de sua zona de conforto.

Beijos e até o próximo post.

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