Life Style,  Toronto

Dicas para se preparar antes de mudar de país

Fazem exatos 2 anos e 6 meses que nos mudamos para Toronto, o que é pouco se considerarmos que eu vivi mais de 28 anos no Brasil. Esse pouco tempo aqui, não foi suficiente ainda para que eu me sinta completamente em casa. São tantas adaptações diárias, que torna-se um desafio incessante se sentir parte completamente de um país, cuja a cultura é completamente diferente de onde viemos.

Muitos desses desafios de adaptação eu sabia que iria enfrentar, alguns foram como eu imaginava, outros foram mais dificeis do que eu pensei que seriam e outros eu nem sequer imaginei que pudessem acontecer.
Na prática eu descobri que morar em outro país é uma mudança muito mais profunda do que eu imaginava, a qual exige muito das pessoas (especialmente do seu emocional) e por isso, hoje eu quero compartilhar algumas dicas que eu gostaria de ter lido antes de mudar de país.

RESPIRE O PAÍS DESTINO

Antes de me mudar para Toronto, eu e meu marido passamos 4 anos nos preparando para essa “nova” vida que tanto sonhávamos.
Foram 4 anos pesquisando tudo que podíamos sobre a rotina de Toronto, o mercado de trabalho, o custo de vida, a cultura e tudo que fosse relacionado ao Canadá como um todo.
Passávamos horaaaaas lendo blogs e assistindo dezenas de videos semanalmente sobre o Canadá. Nenhuma opinião era descartada e tudo de alguma forma acrescentava-nos alguma informação sobre o país.
Por isso, minha dica é: pesquise tudo que você puder sobre o país que você pretende morar, quanto mais informações melhor.
Há muitas pessoas compartilhando informações, curiosidades e a vida em outro país, através de blogs e videos no Youtube. Com certeza você encontrará muita informação de onde pretende morar. Inclusive, não se limite a assistir ou ler blogs somente de Brasileiros, mas veja também pessoas de outros lugares do Mundo falando sobre sua experiência vivendo no destino em questão.

VISITE O LUGAR ANTES DE SE MUDAR

Durante a nossa pesquisa sobre o Canadá, “conhecemos” virtualmente uma pessoa que morava em Toronto e ao comentar que tinhamos planos de nos mudar para Toronto, ela nos questionou: “Mas como você está planejando morar num lugar que você nem conhece?” – E aquilo fez tanto sentido, pois na época, estávamos há cerca de 1 ano sonhando viver num lugar que parecia ser incrível para aquelas pessoas as quais nós acompanhávamos os blogs e canais no Youtube, mas será que ela seria boa para nós?

Eu sei que uma viagem internacional costuma ser cara e nem sempre temos disponibilidade financeira para realizá-la, mas tratando-se de uma mudança, na qual estamos dispostos a largar tudo para reconstruir nossa vida praticamente do zero, tratasse de um passo muito grande, por isso, me parece indispensável visitar o lugar primeiro para que tenhamos a nossa própria opinião sobre o lugar, afinal, nem sempre o que é bom para o outro, é bom para mim.

Depois do questionamento, nós decidimos visitar Toronto e propositalmente escolhemos conhecer a cidade no pico do Inverno, em pleno Fevereiro, pois um dos nossos medos era não se adaptar ao frio e queríamos saber se seríamos capazes de resistir a temperaturas extremas de até -40C e como era a rotina da cidade nesse clima extremo.
Eu particularmente, recomendo muito que você visite o lugar que pretende morar na época menos atrativa, pois é muito fácil você se apaixonar por Toronto no Verão por exemplo, a cidade fica linda, os dias são longos, com dias predominantemente ensolarados e super quentes. Há milhões de atividades para fazer, as pessoas estão felizes por estarem na rua, tudo é maravilhoso. No entanto, se você considerar apenas esse período pode se decepcionar muito quando chegar o Inverno, pois o cenário é praticamente o oposto.
Então se possível, escolha conhecer a cidade na época menos atrativa, pois se você for capaz de se apaixonar por ela mesmo assim, então muito provavelmente você também irá curti-la na época mais atrativa.

Um outro exemplo, é que muita gente é apaixonada por Vancouver, uma das cidades mais conhecidas do Canadá, as pessoas amam o clima ameno onde neva muito pouco, amam as montanhas que cercam a cidade proporcionando um cenário lindo, amam o contato com a vida selvagem, a praia e outras coisas.
No entanto, quando nós visitamos Vancouver a cidade não ganhou meu coração, eu não senti identificação nenhuma e não conseguia me ver morando ali. Por isso, reforço: visite o lugar que você pretende morar, para evitar desilusões futuras.

VIVA O IDIOMA

Eu e meu marido já sabíamos nos virar muito bem com o inglês. No Brasil, o nosso inglês era tido como “avançado” e há muitos anos (no caso do meu marido desde a infância) estudávamos inglês.
No entanto, quando chegamos aqui e tivemos de lidar com pessoas do mundo inteiro com diferentes entonações, com as gírias do dia-a-dia que não apareciam nas aulas de inglês, nos assustamos. Parecia que o nosso inglês tínha retornado para o nivel mais básico.
Como a comunicação é tão fundamental, isso desequilibrou a gente (e até hoje o faz), é angustiante você não entender o que alguém está lhe dizendo ou querer falar uma coisa que você nunca tinha precisado falar antes e não faz a menor idéia como se fala.
Um exemplo disso, é uma simples consulta no médico, onde as vezes estamos com uma dor que a gente nem sabe descrever aonde e como dói no nosso idioma nativo, agora imagine descrever em outro idioma?
Se no Brasil, às vezes eu tinha dificuldade de entender alguns termos médicos, agora imagina em inglês? Pois é! rsrs.
Ou quando precisamos ler um contrato em português cujo o vocabulário é mais “jurídico” e por isso precisamos tomar atenção e reler para entendê-lo. O mesmo acontece com contratos aqui que também tem um vocabulário jurídico, porém com o acréscimo de estar num idioma que você não é nativo.
Aqui minha dica é: estude o idioma do local como sua vida dependesse disso (e na real vai depender mesmo). Estude ao menos 30 minutos todos os dias e mude seus hábitos para ouvir, ler, assistir e conviver o máximo possível com o idioma em questão…e quando você achar que está estudando muito, dobre os estudos.
Parece um exagero, mas não é! A comunicação vai mexer muito com seu emocional, por isso, quanto mais você se preparar menos vai se frustrar.
Não se deixe levar pela idéia de que ao se mudar você vai aprender magicamente o idioma, porque estará convivendo com ele diariamente, pois não vai.
Há pessoas que moram aqui há décadas e falam somente o básico. Não há como aprender um idioma por osmose, então se você não estudar antes de se mudar, vai ter de estudar quando já estiver morando no país destino e a pressão será ainda maior, porque você estará vivenciando situações reais que exigem sua comunicação naquele instante e nem sempre você terá acesso a internet para recorrer ao tradutor e vale lembrar que para traduzir algo que você ouviu por exemplo, você precisa saber como se escreve. Por isso, não espere se mudar para ter mais contato com o idioma, pois você pode conviver com ele de onde você estiver, basta querer.

ESTEJA EMOCIONALMENTE BEM (OU MELHOR, ESTEJA EXCELENTE)

A experiência de morar fora nunca será igual para ninguém, porque temos uma bagagem emocional diferente.
Meu marido por exemplo, sempre foi mais caseiro e reservado, de poucos amigos e família pequena. Enquanto eu era da turma do agito, vivia cercada de amigos ou da família (que é enorme) e quando nos mudamos para cá, passamos de uma vida social extremante ativa para uma vida mais isolada e essa mudança na vida social mexeu muito mais comigo do que com ele.
Por diversas vezes tive vontade de voltar para o Brasil, pois achava que eu não seria capaz de suportar tamanha saudade da família e dos amigos.
E somente na última vez que estive no Brasil, em Dezembro do ano passado (ou seja, 2 anos após me mudar), foi que enfim eu senti que consegui desapegar dos sentimentos que me torturavam, inclusive falei sobre isso nesse post.
Nesses 4 anos em que planejamos nos mudar para o Canadá, houve um tempo em que eu bati o pé com meu marido que devíamos nos mudar naquele momento, pois eu estava frustrada demais com a vida no Brasil. Eu não estava feliz no meu trabalho, estava perdida sobre os meus sonhos, não me sentia completa, as coisas no Brasil me irritavam, eu vivia reclamando e às vezes até chorando por conta das diversas frustrações na vida profissional e pessoal.
Na época meu marido me disse que então, por essa razão não iríamos nos mudar, pois eu não estava bem.
Na época eu fiquei muito, mas muito brava e chateada com ele, mas hoje eu agradeço imensamente por ele ter tido sabedoria naquele momento, pois eu achava que aquela fase ruim pedia por novos ares, no entanto, o que eu não sabia era que viver em outro país era uma mudança muito maior do que eu poderia imaginar.
Cerca de 2 anos depois desse episódio o cenário era completamente diferente. Eu estava ótima! Eu amava o meu trabalho, nós tinhamos organizado nossa rotina, morávamos num apartamento melhor e recebíamos os amigos com ainda mais frequência. Minha primeira sobrinha tinha chegado e tudo era só alegria. Foi então que decidimos nos mudar.
Em 2016, quando iniciamos essa nova vida no Canadá, nós vínhamos de uma fase muito boa no Brasil, nosso emocional estava ótimo e isso nos ajudou muito a aguentar o baque que a mudança de país causou. Se eu tivesse me mudado para o Canadá na época em que eu já não estava bem, eu não sei se eu teria sido capaz de suportar toda a pressão emocional que se enfrenta numa mudança como essa.
Por isso, minha dica é: se possível, só comece a colocar em prática a sua mudança de país, se você estiver emocionalmente (super) bem. Caso não esteja, eu recomendo segurar mais um pouco os planos (e a ansiedade que bate forte), pois a mudança vai lhe exigir muita energia (fisica, emocional e psicológica), equilibrio e sabedoria. Quanto melhor emocionalmente estivermos, melhor lídamos com os desafios.

O PESO DA RELAÇÃO MUDA

Assim como é importante estarmos de bem como a gente e de certa forma de bem com a vida, se você vai encarar essa mudança de país com alguém, é essencial que os dois tenham o mesmo objetivo.
Não adianta um estar empolgado para se mudar e o outro não mas vai junto para acompanhar. Essa mudança exige muito de todos e quando eu digo isso, não é só sobre exigir dedicação ao trabalho ou aos estudos por exemplo, mas a adaptação engloba muitas coisas e vai exigir muito do seu emocional e se você não tiver razões suficientemente fortes e boas para ficar, você não vai querer, pois não é só a sua familia, amigos e os seus bens que você deixou pra traz, você também deixou toda a sua história e isso nos dá a estranha sensação de ter deixado a nós mesmos e ter trazido uma nova versão nossa que dela pouco (ou nada) conhecemos.

Um exemplo disso, é que eu sempre tive facilidade para fazer amigos e achei que em pouco tempo teria muitos amigos em Toronto, mas depois que passei a viver aqui, percebi que as pessoas não fazem questão de ter muitos amigos, pois aqueles poucos de infância já lhe suprem a sua vida social e o foco deles aqui é passar o tempo com a família.
Com isso, passei de uma vida social extremamente ativa e disputada, para uma vida social mais isolada.
Eu sempre fui muito comunicativa, divertida e engraçada, a famosa palhaça do grupo e da família e aqui muitas pessoas dizem que sou timida.
Nunca na minha vida eu achei que alguém diria isso sobre mim (quem me conhece deve estar até rindo disso hahaha), mas a mudança de país nos transforma de uma maneira profunda, até em coisas que não achamos que seria possível mudar (e algumas nós nem queríamos). Hoje eu sou realmente mais timida, porque a cultura daqui exige que você se preocupe muito em não ofender o outro e isso nos faz pensar muito antes de falar qualquer coisa, além da barreira cultural que faz com que tenhamos poucos assuntos em comum.

Antes de me mudar, eu nunca tinha pensado sobre isso, mas a mudança de país coloca um peso enorme na relação, pois deixamos de ter dois alicerces importantes que são: a familia e os amigos, e todo o “peso” (leia-se problemas e imprevistos, mas também nossas emoções como alegria, tristeza, etc) que antes distribuíamos entre outras pessoas agora está sob um único alicerce: o(a) companheiro(a).
Isso mexe muito com a relação, pois antes em situações de stress ou frustração, dividíamos/aliviavámos isso, conversando um pouco com nosso(a) companheiro(a) e/ou ganhando um colo da família e/ou nos divertindo o com os amigos e agora a carga toda vai para uma pessoa só, entende?
Eu sempre achei muito saúdavel para a relação cada um ter o seu tempo para curtir com os seus amigos, com a família e consigo, porque tem dias que a gente quer rir com aqueles amigos bagunceiros, ou quer ter um papo sério com aqueles amigos que sempre te dão uma luz ou simplesmente quer se reunir com as amigas para falar sobre “coisas de menina” e com a mudança eu acabo jogando tudo isso pro meu marido, mas obviamente ele não é igual a essas pessoas as quais eu recorria e por isso acaba sendo dificil para ele administrar. O mesmo acontece quando eu preciso lhe fazer companhia em situações que antes eu não ia e também ouvir-lhe falar sobre assuntos de futebol que antes os amigos é quem o ouvia.
Tudo isso, trás um peso diferente para a relação, exigindo muito dos dois e no nosso caso, acaba por exigir mais dele e causar mais frustração em mim, já que eu tinha sempre muitos amigos e familiares como alicerces.
Com isso, podem acontecer duas coisas ou a relação fica mais forte ou ela termina.
Para nós, essa adaptação em outro país foi a fase mais desafiadora para a nossa relação até hoje.
Por isso, reforço que é importante ambos estarem afim de se mudar, ambos estarem emocionalmente bem, assim como a relacionamento também estar muito bem antes da mudança, porque a relação ganhará um peso diferente e será exigido muito mais um do outro.

A CULTURA E A LACUNA QUE FALTA

A cultura é uma barreira muito grande e por isso, é importante conhecer ao máximo sobre a cultura do país, para saber se estaremos dispostos a mudar para nos encaixar naquilo.
Sobre a cultura eu percebo que só há duas opções: se adaptar a ela ou sofrer por ela.
Há quem ame o Inverno daqui, pois se diverte praticando diferentes atividades assim como em outras estações e há quem odeie e fica meses isolado em casa chateado e reclamando do frio.
Também há pessoas que comentam (até com um pouco de frustração), como os Canadenses são frios e em alguns aspectos eles são mesmo, mas sinceramente eu AMO isso neles, mas há quem não aceite esse comportamento e se frustra.
Há quem se incomode com as milhares de regras que existem, as quais a desobediencia geram diversas punições como multa ou cadeia, como por exemplo, o menor sinal de uma leve palmada dos pais numa criança, é considerado crime com pena de prisão ou um cachorro que morda outro animal ou pessoa e pode ter como punição a execução.
Quando eu conto para as pessoas sobre o clima, a comida e alguns comportamentos daqui, há quem goste e há quem diga que não se imagina vivendo num lugar assim. Por isso, é importante estar atento a isso e saber se você está disposto a mudar ou aceitar algumas coisas para se encaixar.
Um outro fator curioso sobre a cultura, é que ela não envolve somente as regras e comportamentos das pessoas, mas também a história do lugar.
Eu particularmente sinto que ao me mudar para o Canadá eu deixei muitas emoções (que eram parte do que eu sou) para trás e isso me deu a sensação de ter deixado uma parte gigante de mim para trás.
É muito estranho você ver televisão e não sentir emoção nenhuma nos programas e comerciais ou não ter nenhuma memória/referência daquelas pessoas ou produtos.
Me lembro de ver um show aqui e as pessoas irem a loucura quando uma determinada musica tocou e eu me senti perdida porque eu não só não conhecia a música, como eu não sabia o que ela representava para aquelas pessoas, talvez fosse algo tão marcante como “Mamonas Assassinas” foi pra mim. Em seguida, uma apresentadora subiu no palco e novamente as pessoas foram a loucura e eu novamente eu não fazia a menor idéia de quem era. Talvez ela fosse a “Xuxa” daqui e mesmo que eu pesquisasse na internet e descobrisse quem ela era e o que representava para as pessoas, eu nunca seria capaz de sentir a mesma emoção, porque eu não vivi aquela história. É o mesmo que descrever a Xuxa para alguém de fora do Brasil, porque ela nunca vão entender a emoção de vê-la descendo da nave, porque ela não viveu e sentiu aquilo na época.
A sensação é que tem uma lacuna enorme na sua vida, como acontece naqueles filmes onde uma pessoa foi congelada e acordou no futuro sem entender nada.
E isso acontece com tudo, com as marcas no supermercado que não lhe trazem lembranças de infância ou nenhuma referência de serem boas ou ruins, assim como as ruas que você caminha e não tem nenhuma recordação de ter vivido algo ali…nada te traz uma memória afetiva ou saudosismo e é tão estranho não “sentir” nada e não ter emoção alguma.

Por isso, eu acho a barreira cultural tão grande, pois além do idioma, da comida e dos hábitos, tem a história que eu não vivi e que por isso não me trás emoções.
Nossos ídolos de infância são diferentes, nossos sabores da infância são outros, as piadas que conhecemos não fazem sentido (ou não tem graça) aqui, dentre tantas outras coisas.
Por isso, conheça o máximo que você puder sobre os hábitos e comportamento da cultura local, mas também se prepare para lidar com uma lacuna enorme de uma história que você não viveu e para ter uma vida com uma tela em branco de emoções, onde você está construindo uma nova história do zero como uma criança que acabou de nascer e também é importante se preparar para conhecer e lidar com uma versão completamente diferente de si mesmo, que vai mudar para melhor mas também em algumas coisas que talvez você não gostaria de mudar, como eu, que me tornei timida e reservada.

Assim como todas as coisas que eu escrevo no blog, esse post consta a minha visão sobre as minhas experiências, o que significa que nada é uma regra, portanto nem todos irão sentir, perceber ou vivenciar as mesmas coisas que eu.
O objetivo do texto não é desmotivar, mas sim compartilhar dicas que possam preparar ainda mais as pessoas para uma mudança de país.
Então, espero que de alguma forma elas lhe ajudem nos seus planos 🙂

Com amor, Sil.

Loading Likes...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *