Comportamento,  Life Style

Nossa vida corrida causada pelo desejo

Eu estava pronta para escrever um post no blog sobre a vida do Tadeu no Canadá, mas ao buscar fotos dele para ilustrar o post, não pude deixar de me espantar como o olhar do Tadeu era triste antes de vir para cá.

Na mesma hora eu comecei a pensar na rotina que a gente levava no Brasil, numa correria constante e sempre sem tempo.
Até ver essa foto, eu não havia notado o quanto essa rotina afetava o Tadeu, ao mesmo tempo, comecei a pensar que muitos outros pais – de cachorro ou de crianças – podem estar vivendo no automático assim como nós vivíamos, sem refletir se estão priorizando suas prioridades. Por isso, eu decidi escrever esse post e trazer um pouco da reflexão que eu fiz sobre a nossa mudança de mentalidade em relação ao trabalho.

Nossa vida em São Paulo era muito corrida, muito por nossa própria culpa, de querer sempre fazer mais, entregar mais e fazer melhor, numa busca sem fim por mais reconhecimento e prestígio.
Com isso, sem que ninguém pedisse, nós trabalhávamos normalmente 12hs por dia, (as vezes, até nos finais de semana) para tentar dar conta de tudo que queríamos fazer pelo puro orgulho de querer ser a “referência no time” e/ou “o melhor” no que eu fazíamos.

Nessa busca de ser uma referência profissional, nós não percebíamos que o Tadeu passava mais de 12hs sozinho, vendo a gente sair quando o Sol nem tinha nascido e retornando quando já havia anoitecido.
E é claro que sempre chegávamos exaustos e nosso tempo com ele acabava sendo curto. No fim, enquanto eu fazia o jantar, meu marido brincava com ele e logo depois íamos dormir.
Além disso, achávamos que ao dedicar 2 dos 7 dias da semana para estar com ele, estaríamos compensando nossa ausência durante a semana, mas a verdade é que no final de semana, ele ainda disputava nossa atenção com as tarefas de casa e compromissos sociais que tínhamos e sem perceber colocávamos coisas menos importantes na frente dele.

A gente se dedicava muito ao trabalho e como o resultado não vinha no tempo esperado – leia-se promoção, dinheiro, prêmios – achávamos que precisávamos nos esforçar mais, ou seja, mergulhar cada vez mais fundo no nosso trabalho.
E conforme as promoções aconteciam, nós aumentávamos os nossos gastos mensais (afinal, tínhamos mais dinheiro agora) e automaticamente surgia o desejo de querer frequentar restaurantes melhores, usar marcas que antes não tínhamos acesso, fazer viagens caras, adquirir itens da moda, comprar um apartamento maior, mobiliar com móveis planejados e decorar com o que de melhor podíamos. Com isso, aquela promoção rapidamente já não era o suficiente e precisávamos de mais dinheiro.

Sem perceber, nos tornávamos reféns do desejo de querer um estilo de vida cada vez melhor, onde nada nos satisfazia e sempre queríamos mais e mais. Então, passávamos a ter que trabalhar ainda mais para pagar o apartamento novo, para comprar roupas, sapatos e utensílios para encher os armários planejados e também trabalhar mais para sustentar o novo estilo de vida que surgia a cada aumento salarial e que rapidamente era sucumbido pela insatisfação e desejo por querer um estilo de vida ainda melhor.

Enquanto isso, o Tadeu tinha cada vez menos a presença dos pais, que acreditavam estar dando tudo o que ele precisava e o que de melhor podiam, como a ração mais cara, os brinquedos mais legais do petshop, um lar espaçoso e etc.
Mas o que nós não enxergávamos era que o Tadeu não se importava com nada disso. Ele não dava a mínima por morar num apartamento grande, andar de carro importado, ter pais com uma carreira bem sucedida ou um monte de brinquedos incríveis, o que ele queria era apenas tempo.
Tempo para curtir a companhia do pais, tempo para lhe darem mais atenção e tempo para construir memórias que o dinheiro não pode comprar e eu acredito que com as crianças o mesmo deve acontecer.

Eu sempre achei que o problema da minha falta de tempo era o meu trabalho, eu nunca parei para refletir que na verdade o problema era o meu desejo pelo reconhecimento, prêmios e prestígio, minha vaidade por status, meu orgulho em querer ser a melhor, além da minha ganância de sempre querer mais e mais.
Eu não sabia que o desejo, a vaidade e o orgulho era algo do nosso ego, que inclusive nunca está satisfeito.
Ao nos deixar levar por nossos desejos, a gente parte para uma jornada sem fim, onde nenhum salário, nenhum cargo e nenhum estilo de vida jamais irá nos satisfazer e trazer contentamento e assim, seguimos sempre querendo mais e nos sentindo sempre insatisfeitos.

Depois que eu e meu marido passamos a viver numa cultura muito mais simples e infinitamente menos vaidosa (inclusive em relação ao cargo profissional que se ocupa na sociedade), eu entendi que o problema nunca foi meu trabalho e sim eu ter me deixado levar pelo desejo, vaidade e orgulho.

Aqui as pessoas priorizam de verdade a família, vivem da melhor maneira que podem, dando valor para as coisas mais simples da vida e não para as coisas que elas adquiriram com o dinheiro.
Para os Canadenses, o tempo é tão valioso e por isso, é preciso escolher bem aonde ele será investido e se questionar se dedicaremos tempo fazendo hora extra no trabalho quando NINGUÉM, além de nós mesmos, estamos nos cobrando disso.
E sem perceber, toda essa cobrança e pressão, ainda faz com que consequentemente busquemos alternativas – as quais roubam ainda mais o nosso tempo – como compras, televisão, celular e etc, na tentativa de nos aliviar da cobrança que muitas vezes somos nós mesmos que causamos.
Com isso, vamos passando cada vez menos tempo com quem amamos.

Observando os Canadenses, nós aprendemos a organizar e principalmente a viver de acordo com as nossas prioridades, pois para nós, a família tem muito mais importância que o nosso trabalho, mas não agíamos de acordo com essa prioridade, pois na prática deixávamos que o trabalho fosse o centro da nossa vida e a família ficava em segundo plano.

Hoje, nós não trabalhamos mais do que nos é pedido, cumprimos nosso horário e não ficamos nos cobrando para sermos os melhores, pois ser bom no que fazemos já nos trás alegria e a busca em ser o “melhor de todos” era apenas vaidade nossa, a qual só nos trazia cansaço, intriga e estresse.
Quando nós deixamos os nossos desejos vaidosos e orgulhosos de lado, finalmente encontramos paz na nossa rotina, além de um tempo muito maior para curtirmos nossos momentos em família, pois isso sim é a nossa prioridade.

Desde que mudamos para cá e passamos a agir de acordo com as nossas prioridades, o Tadeu se tornou outro cachorro, muito mais conectado conosco, muito mais esperto, engraçado, muito mais amoroso e seu olhar não nega como ele está nitidamente muito mais feliz (nós também).

Eu acho importante destacar, que todos nós somos diferentes, tivemos experiências distintas na vida e até sentimos as coisas de maneira única, por exemplo, nós podemos estar alegres pela mesma razão, mas sua maneira de sentir alegria não é igual a de ninguém, por isso, nem tudo que funciona para o outro funcionará para a gente.
Com isso, eu quero enfatizar que nem todo mundo que trabalha muito está motivado pelo desejo, orgulho ou vaidade. Nesse post, eu apenas relato o que eu descobri sobre as minhas intenções no trabalho, quando olhei com mais verdade para a rotina que eu levava.

Dentro da minha história, eu achei que estava dando de tudo para meu cachorro, com todo o conforto e diversão que o nosso dinheiro podia comprar, mas o que ele queria era apenas tempo, ou seja, algo muito mais simples que tudo isso, porém muito mais valioso e eu não enxergava.

Seja honesto(a) com você

Por muito tempo eu achei que as empresas que eu trabalhei me sobrecarregavam demais e demorei para compreender que a pressão que existia na minha cabeça, era apenas eu quem criava.
Por isso, eu sugiro ter uma conversa honesta consigo e se perguntar quem tem exigido tanto de você? Se for o caso, se pergunte porque você tem buscado ser o melhor de todos no que você faz, o melhor do seu time ou o melhor no que quer que seja? E o mais importante, qual a sua intenção com isso?
Se pergunte também qual será o benefício quando você chegar lá e o que isso vai te custar?

Com esse texto, eu não estou dizendo para seguirmos um caminho de comodismo, pois eu acho importante a gente ter sonhos e metas, mas eu acredito que não precisamos sofrer por eles. Nós podemos trabalhar muito e nos dedicar bastante a algo, sem sacrificar as demais áreas da nossa vida e trabalhar pela alegria genuina de fazê-lo e não motivados pela falsa alegria da conquista que na verdade é apenas o prazer da vaidade e do orgulho.
O caminho que eu tenho buscado além da alegria genuína, é o do contentamento, onde eu sigo atrás dos meus sonhos e se eu realizá-los ótimo, mas se eu não realizá-los ótimo também. Dessa forma, eu não fico me martirizando ou sofrendo por não ter conseguido realizar algo.

Sinceramente, eu não acho bonito vir aqui e expôr o quanto eu era mergulhada em desejos, orgulho, vaidade e ambição, mas pior do que admitir isso no blog, foi ter de admitir isso pra mim mesma, porque ninguém quer ser orgulhoso e vaidoso, mas só assim, eu pude enxergar o rumo insaciável que eu estava dando a minha vida e então, pude buscar um caminho com mais paz, alegria e equilíbrio.

Eu espero que esse texto lhe ajude a refletir sobre a sua jornada (que não é igual a minha) e lhe ajude a seguir por uma vida com mais alegria, tanto para você, quanto para os que lhe rodeam.

Com amor,
Sil.

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