Comportamento

O que uma ansiedade extrema me revelou

Faz alguns meses que eu não escrevo no blog e mesmo sendo algo que eu amo fazer, algumas coisas acabaram me desanimando de vir aqui.
Uma das razões que me afastaram do blog foram questões emocionais e como isso pode estar acontecendo com outras pessoas, eu acredito que escrever o que eu passei seria uma oportunidade de ajudá-las.

É fato que para a maioria das pessoas 2020 não foi um ano fácil . As consequências da pandemia afetaram as pessoas de diferentes formas. Algumas consequências podem ser vistas aos olhos, como pessoas doentes, desempregadas, endividadas, fechando seus negócios, etc. Mas tem muita coisa longe dos olhos acontecendo dentro das pessoas e que somente elas sabem.

Um dos desafios dessa pandemia é o distanciamento social. Para algumas culturas,, como a do Brasil, é ainda mais desafiador pois as pessoas gostam muito de se reunir e estar rodeado de gente.
Por motivações diferentes, é claro, podemos dizer que muitas pessoas puderam sentir um pouco dessa experiência que o imigrante vive de ficar meses (as vezes até anos) sem poder ver as pessoas que amam. E como muitos puderam ver, ficar longe de quem amamos não é algo fácil!

Eu confesso que no inicio da quarentena, eu imaginei que seria tranquilo ficar isolado, afinal ficar um tempo sem ver a familia e os amigos era algo que eu já fazia desde que me mudei para Toronto. Mas na prática, não foi assim, aliás não chegou nem perto de ser algo tranquilo pra mim.

O QUE EU ESCONDIA EMBAIXO DO TAPETE

Todos nós temos problemas e dilemas que evitamos lidar. Com isso, colocamos muita coisa embaixo do tapete para não ter de encará-las naquele momento. Eu acredito que a pandemia acabou realçando esses problemas e dilemas que estavam escondidos, sejam eles pessoais, profissionais ou de relacionamentos.
A correria do dia-a-dia e até os passeios nos distraiam dessas coisas e agora que tinhamos tempo, estava dificil não notar esses “caroços” se destacando no tapete.

Uma das coisas que, eu por exemplo, escondia embaixo do tapete, era a dor pela saudade da vida social que eu tinha no Brasil, onde eu vivia cercada pela familia e pelos muitos amigos que tenho.
Eu não sou uma pessoa introvertida. Nunca fui! E ouso dizer que nunca serei.
Eu amo estar rodeada de pessoas. Amo fazer elas rirem. Amo receber pessoas em casa. Amo happy hour. Amo arrumar qualquer desculpa para organizar uma festa. Amo beber vinho com minhas amigas. Amo um churrasco. Amo ir em casamentos. Amo os domingos na casa da minha mãe.
Mas a verdade é que desde que eu me mudei para o Canadá, eu tento me convencer que eu não sou assim. Que eu não me importo por não ter uma vida social agitada. Que eu não preciso de amigos para viver minha vida. Que os Canadenses não são de ter muitos amigos, então eu também sou capaz de viver assim. Que eu, meu marido e o Tadeu nos bastamos e tantas outras coisas.

Nós costumamos ir para o Brasil uma vez ao ano para ver pelo menos a nossa familia. O que para muita gente é muito, já que as vezes elas passam até anos sem ir. Mas mesmo morando há mais de 4 anos no Canadá, ficar quase 1 ano sem ver as pessoas que eu amo, não é algo que eu tenha me acostumado. Pelo contrário, eu sinto MUITA falta de estar cercada pelas pessoas que eu amo e que me amam também.
Eu percebi que ao longo desses anos eu ignorava que essa distância era algo que me incomodava. Eu a negava repetindo pra mim mesma que ia passar e que a saudade um dia ia diminuir.
Mas o pior que eu fazia era me comparar com pessoas que nas redes sociais ou no meu dia-a-dia pareciam estar super adaptadas com a distância da familia e dos amigos. Em alguns casos não fazendo questão nenhuma de ver seus entes queridos. Não que pensar assim seja um problema, por que não é! O ponto aqui não é a opinião dos outros, mas sim eu me comparar com elas.

Essas comparações me fizeram acreditar que certamente havia algo errado comigo, afinal como eu podia sentir tanta falta da familia e dos meus amigos tão maravilhosos e aquelas pessoas sentirem tão pouco ou quase nada?
Na minha cabeça, se elas conseguiam lidar bem com a saudade certamente o “problema” era eu. E esse foi o meu erro, pois ninguém é igual a ninguém. Cada pessoa carrega uma história e uma personalidade, portanto qualquer comparação que fazemos com alguém é desfuncional.

E então, quando a pandemia chegou, ela apenas enfatizou essa saudade e a frustração que eu sentia pela vida social quase inexistente nesses anos. Eu ignorei e lutei contra isso por anos e agora me via tendo de encarar como eu verdadeiramente me sentia sobre essa saudade e frustração pela vida solitária.

Além da saudade, outros sentimentos que eu ignorava começaram a me encarar, como o medo de perder alguém que eu amo no Brasil. E assim como fez com a saudade, a pandemia também intensificou esse medo quando as fronteiras foram fechadas e todos os vôos foram cancelados.
Se antes em um caso de emergencia a possibilidade de pegar um vôo e em algumas horas poder estar no Brasil me consolavam, quando essa opção deixou de existir eu me vi desesperada.

Um outro medo que me cercava há anos era a questão da saúde no Canadá. Como esse é um tema muito delicado, que divide muitas opiniões e consequentemente geram atritos, eu nunca quis abordar isso no blog.
Mas sem entrar muito em detalhes, eu particularmente não tive boas experiências com os médicos em Toronto e ver que estávamos lidando com uma questão que envolvia uma doença, ainda mais sendo algo completamente novo, isso me deixou muito insegura e com medo do tipo de atendimento que teríamos caso ficassemos doentes.
Fora isso, ainda havia o governo que tratava a situação com pânico total. Talvez na tentativa de amendrontar as pessoas e mantê-las em casa.

Com isso, um medo foi puxando outro, depois outro e mais outro. De repente por me ver “presa” no Canadá, insegura com o atendimento médico e sem ter familia ou ninguém por perto a quem recorrer, eu entendi que eu não podia correr o risco de pegar o virus e então o mais seguro a se fazer era me isolar por completo em casa.
E assim foram 9 meses sem sair para nada. Não íamos ao mercado e nem sequer dar uma volta na rua. Se nesses 9 meses nós saímos 6 vezes de casa para algum lugar aberto, foi muito. Nós literalmente passamos meses vendo o o Sol nascer quadrado.

O MEDO NUNCA ESTEVE FORA

Por acreditar que o medo estava no vírus, eu achei que me isolando do perigo aparente eu ia me sentir mais segura. Mas o medo nunca esteve em nada que estivesse acontecendo no mundo, ele estava dentro mim e qualquer atitude que eu tomasse olhando como se ele estivesse lá fora, não ia resolver.
Aos poucos o medo foi alimentando uma ansiedade que foi crescendo aos poucos, chegando a um nível tão forte e profundo, o qual eu não imaginava ser humanamente possível de existir.
Essa ansiedade acarretou em algumas crises de pânico que me fizeram experênciar momentos bem desafiadores e em alguns deles eu achei que poderia até perder a minha sanidade.

Nesse período, eu me questionei diversas vezes: porque isso estava acontecendo comigo?
Mas o principal: como alguém que estudava tanto sobre o autoconhecimento, sobre a mente e a vida espiritual estava “sem ferramentas” para lidar com aquilo?
Hoje eu sei que a resposta é simples: eu não sei tudo e portanto não tenho todas as ferramentas (e nunca as terei) para lidar com todas as situações da vida. A experiência humana é um ciclo de aprendizado constante e aprender as vezes é dolorido, mas em alguns casos é o único jeito.

Essa fase desafiadora me fez questionar tudo. Eu precisei me perder por completo para me reencontrar. Eu precisei emocionalmente encostar a bunda no fundo do poço para que subir fosse a única opção. Eu precisei me decepcionar profundamente comigo para aprender que a minha vontade nunca estará acima da vontade de Deus. Eu precisei me despir de muito orgulho, de muitas crenças, de muitas cobranças e dar muitos, mas muitos passos para trás, para me pôr em humildade perante a vida e aos planos de Deus.

Eu nunca me vi tão sozinha como naquele periodo, nadando em um mar de desespero, sem conseguir ver nem sequer uma pequena ilha de esperança. Além do meu marido, alguns poucos marinheiros – aos quais serei eternamente grata – surgiram para me ajudar, mas as regras da vida eram claras, ninguém podia me tirar do mar a não ser eu mesma.

Minha fé foi testada muitas vezes, mas nunca duvidada. Nos momentos mais difíceis eu continuava a orar para que Deus me ajudasse a ter consciência de sua presença, pois nos momentos de alegria era muito fácil senti-lo, mas naquele momento de profundo desespero era dificil perceber a sua presença. O que me consolava era a certeza de que seu amor estava (e estará) sempre comigo, então eu só precisava buscá-lo e me concentrar nele.

AS NOVAS FERRAMENTAS

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Em busca de retomar o meu equilibrio, eu tomei a dificil decisão de ir para o Brasil em meio a pandemia. Não foi fácil sair de um isolamento completo (quase uma prisão solitária) de meses para encarar um avião lotado.
Minha esperança era que o amor da minha familia pudesse me ajudar. E de fato ajudou e muito! O amor realmente é capaz de curar tudo. Inclusive, isso me fez entender porque eu sinto tanta saudade da minha familia: família é algo único. Ninguém te ama como eles ou faz por você o que eles fariam.

A chegada no Brasil também não foi algo fácil, pois há meses eu não via pessoas e não interagia pessoalmente com elas. Devido a pandemia, minha familia estava convivendo exclusivamente numa bolha composta pela minha mãe, meus irmãos, cunhados e minhas sobrinhas. Mesmo sendo apenas 7 pessoas, levou um tempo para que aquele “monte” de gente falando perto de mim não me perturbasse. Levou um tempo para que eu me sentisse segura para chegar perto deles e mais ainda para abraça-los. Mas com paciência e muito amor, minha familia foi me ajudando.

Aos poucos Deus foi me dando as “novas ferramentas” que iam me ajudar a superar aquela fase e elas vieram de diversas formas.
Primeiro de uma psicológa que surgiu como um anjo e me ajudou muito, antes mesmo de eu ir para o Brasil. Depois veio o amor da minha mãe, com seu colo protetor, sua comida única, sua paciência, cuidado e amor imenso. Ahhhh como eu te amo, mamis! Obrigada por tudo e por TANTO.
As ferramentas também vieram de coisas simples, como videos aleatórios no Netflix/Youtube que surgiam como sugestão ou eram escolhidos por instinto. E também em momentos ainda mais simples, os quais eu observar a natureza por alguns minutos, mas aprendia tanto.

Pouco a pouco eu fui aprendendo com as novas ferramentas, as quais não só me ajudaram a superar essa fase de ansiedade extrema, como também me ajudaram a entender coisas que há muito tempo eu buscava aprender, mas não compreendia.
Eu passei a entender mais quem eu sou de verdade e a cada dia eu vejo a paz e o esplendor que existe no ser que eu realmente sou.
Eu aprendi a acolher o que eu sinto, ao invés de ficar negando, lutando contra, tentando entender o porque dele estar ali e até querendo expulsar de mim. Mas o principal, eu parei de me identificar como se aquilo fosse eu.

APRENDENDO A LIDAR COM OS SENTIMENTOS

As plantas nascem condicionadas a viverem paradas do começo ao fim de suas vidas e os humanos nascem condicionados a sentirem emoções do começo ao fim de suas vidas.
As plantas não sofrem por sua condição e seguindo seu exemplo, não precisamos sofrer pela nossa, desde que entendamos que sentimentos não são “bons ou ruins” mas sim algo puramente natural que vem de repente e vai embora mais de repente ainda.

Imagine que o seu corpo é um apartamento e você mora ali de favor. Você não é o dono do apartamento e a condição para morar nele é que você o compartilhe aquela morada (o corpo) com diferentes sentimentos e pensamentos, que chegarão de repente em busca de abrigo.
Em contrapartida, esses sentimentos poderão entrar nesse apartamento podendo ficar a vontade para mexer em tudo, exceto tocar em você.

Os sentimentos chegarão de diversas formas e se comportarão de diferentes maneiras. Tem dias que eles chegarão suave gerando um leve desconforto, mas tem dias que chegarão fazendo uma bagunça daquelas, a ponto de “tremer” o apartamento (corpo). Eles podem chegar agitados andando de um lado para outro, trazendo vários pensamentos consigo, mas mesmo que eles mexam de alguma forma com o apartmento (o corpo), eles jamais poderão tocar em você. E é aqui, que está o nosso trunfo.

Quando você está presente e consciente de que você não é os sentimentos, tão pouco os pensamentos que eles trazem consigo. Você entende que eles são apenas visitantes.
Seja o que for que você esteja sentindo hoje, lembre-se que você não é esse sentimento, pois se fosse, você deixaria de existir cada vez que ele fosse embora e isso não acontece, porque você não é a ansiedade, não é o medo, nao é a angustia. Você é um ser divino, perfeito e feliz, que compartilha um corpo com alguns sentimentos que de vez em quando vem te visitar.
Você também não ESTÁ com ansiedade, pois para estar com algo, precisamos carregá-lo conosco, certo? E isso também não acontece, pois uma vez que os sentimentos não podem tocar você, consequentemente você não conseguiria carregá-los consigo.
O mesmo acontece com os pensamentos, os quais não vem de você e sim dos sentimentos. Todos os seus pensamentos são uma grande mentira, mas não há como evitá-los, pois não é você quem os cria.

Assim como os sentimentos, nós estamos condicionados a conviver com os pensamentos, no entanto, há uma grande diferença entre conviver com os pensamentos e acreditar neles.
Se você observar os pensamentos verá que eles são normalmente hipotéses rodeadas de ansiedade e medo sobre o futuro, cobranças, criticas e descrença sobre a sua capacidade, culpa, jugamento ou raiva sobre uma situação ou alguém, entre outras coisas.
O seu verdadeiro eu é algo divino e não falaria através de pensamentos dramáticos, tristes, negativos ou orgulhosos. O que você é se se expressa através da intuição e de idéias claras e objetivas que te trazem solução, paz e não angustia.

Como eu mencionei acima, você também não é o seu corpo, mas eu entendo que essa parte é um pouco mais dificil de assimilar, pois o corpo é algo fisico, visual e palpável, então é fácil nos reconhecermos nele. Mas nosso verdadeiro eu não é algo visto pelo espelho. O corpo é apenas a morada que nos guarda. Quanto mais você treinar para se conscientizar disso, mais o compreenderá.

Ao reconhecer que você também não é o seu corpo, você percebe que seja o que for que os sentimentos estejam fazendo com o corpo, como causando frio na barriga, dor peito, nó na garganta, angustia no coração, dor de barriga, dor de cabeça, calafrio ou qualquer outro desconforto você entende que aquilo não está acontecendo com você. Aquilo é uma manifestação entre a visita (o sentimento) e o apartamento (o corpo) e isso – ao menos pra mim – traz uma paz muito grande de que o meu verdadeiro eu está bem e não há o que temer, pois o que eu sou de verdade está protegido.

Os sentimentos tem um jeito curioso de se comportar. Quando eles chegam se nos incomordarmos com a sua presença, se tentarmos nos distrais com outra coisa para fingir que ele não está ali, se ficarmos desejando que vá embora o quanto antes pronto, fechamos a porta que ele entrou.
No entanto, se aceitarmos que ele está ali, se o recebermos sem nos preocupar em quando irão embora, então deixamos a porta aberta para eles sairem.

Por isso, quando a ansiedade, o medo, a culpa, a angustia, a raiva ou qualquer outro sentimento vier te visitar, dê boas-vindas a ele. Receba-o de braços abertos: “Ansiedade abençoada, você chegou. Seja bem vinda, minha querida! Fique a vontade, faça o que precisa e fique o tempo que você precisar”.

HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM

Como Buda disse “Nós morremos e renascemos muitas vezes” e eu tenho certeza que uma Sil precisou “morrer” nessa fase desafiadora, para que uma “nova” Sil pudesse renascer. 
Hoje as coisas fazem muito mais sentido do que faziam antes de eu ter passado por essa fase. Eu acho que aquele famoso ditado “há males que vem para o bem” se encaixa bem sobre o que aconteceu comigo.

A maneira que eu vejo o mundo e a vida estão bem diferentes agora. A Sil é literalmente outra pessoa pra mim. O meu amor por Deus está ainda maior, eu me sinto mais próxima dEle e ainda mais grata.
Muito do que me amedrontava ontem, hoje já não me perturba mais e cada vez mais eu tenho me sentido em paz.

Eu tenho plena consciência de que se eu não tivesse passado por essa experiência desafiadora, essa “nova” Sil não teria nascido. Por isso, eu sou profundamente grata por cada dor que eu precisei passar para que eu pudesse ser quem eu sou hoje.

Assim como eu, imagino que muitas pessoas passaram ou estão passando por situações emocionalmente desafiadoras nesse período e por isso, eu quis compartilhar um pouco do que eu vivi. Espero que esse depoimento possa inspirar, ajudar e confortar essas pessoas.
Lembre-se que tudo passa e isso também vai passar. Aceite a presença dos pensamentos, dos sentimentos e das situações. Se lembre quem você é de verdade e confie nesse ser, pois ele vai te guiar e trazer as ferramentas para te ajudar a resolver o que for.

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