Comportamento,  Life Style

Visita ao Brasil: O que eu estranhei dessa vez?

Em setembro de 2017 na penúltima vez que eu fui ao Brasil, ou seja, há um pouco mais de 1 ano atrás, eu escrevi um post descrevendo o que eu mais estranhei quando estive por lá, como as pessoas terem uma certa satisfação em dizer que não tem tempo para nada (pois isso quer dizer que são ocupadas e importantes), as pessoas não aproveitam os eventos e programas gratuitos da cidade por achar que não vale a pena, entre outras coisas.

Agora em Dezembro, nós aproveitamos o período de festas para tirar umas férias com a família e as mesmas coisas que eu estranhei e descrevi no post anterior permanecem iguais, mas dessa vez não foram essas coisas que mais me causaram estranhesa, talvez porque eu já estivesse esperando por elas. É engraçado que conforme eu vou mudando eu também vou observando coisas que eu não percebia antes e o fato de estar longe, me faz esquecer de detalhes que eu não me recordava mais.
Abaixo eu compartilho algumas dessas minhas percepções com vocês.

Consumismo

Como eu estive no Brasil na época de final de ano, muitas pessoas estavam atrás de presentes de Natal, o que é algo natural, eu mesma fiz compras para presentear a família, mas em meio a isso, o que chamou minha atenção, foi o consumismo das crianças.
Ao ir numa loja de brinquedos e ver as crianças euforicas/desesperadas (como eu também ficava na minha infância) pedindo brinquedos que custavam em média R$ 300,00 (sem contar outras tantos que passavam de R$ 500,00) e os pais comprando.
Na mesma hora me veio na cabeça, que enquanto isso no Canadá, as crianças estavam fazendo biscoitos para presentear os amigos, personalizando algo para dar aos pais e ganhando presentes simples. Um exemplo disso, pode ser visto nesse video do canal da Lú, que é brasileira e mora no Canadá com o marido e 2 filhos, onde ela mostrou um pouco dos preparativos do Natal na casa dela.
Antes de mais nada, eu quero destacar que cada um faz o que bem entende do seu dinheiro e o que me chamou atenção nessa situação, foi a cultura de cada pais, onde as crianças tem expectativas diferentes sobre o Natal.

A partir disso, fiquei observando como no Brasil as crianças são expostas ao consumismo, que é enfatizado em todos os comerciais dos programas infantis e também através dos Youtubers que abrem, mostram, brincam com brinquedos e tentam convencer as crianças de que elas “tem que ter” aquele brinquedo também.
É claro, que isso desperta o interesse das crianças, o que consequentemente aumenta a demanda pelo brinquedo e automaticamente faz com o preço deles se elevem. Isso explica, porque um brinquedo que aqui custa CAD$ 10,00 acaba custando R$ 100,00 no Brasil, pois além dos tributos e impostos, o que pesa no valor é a demanda que é muito maior no Brasil, pois o brinquedo virou “moda”.

Ao mesmo tempo, fiquei pensando como no Brasil é difícil você ensinar sobre o valor das coisas para seus filhos, pois mesmo os pais decidindo não comprar a boneca da moda para a sua filha, as vezes surge alguém da família que compra e dá de presente. Quando aqui, o normal é sempre a pessoa perguntar aos pais o que pode dar de presente ao filho dela e não entregar algo de surpresa.

Caminhando pelo shopping, eu lembrei que todo ano os shoppings trocam as decorações de Natal e fiquei pensando no desperdício de material e dinheiro que isso gera. Algo que antes eu nem parava para pensar, mas depois que me mudei para Toronto onde os shoppings utilizam a mesma decoração há vááários anos para não gerar mais lixo, eu percebi que fazia todo o sentido o shopping reutilizar a decoração.

Ainda nesse clima de Natal, eu lembrei que é comum as pessoas comprarem roupas novas para passar o Natal e o Ano Novo, foi aí que me dei conta que eu não tinha roupa nova…e sabe o que eu fiz? Abri minha mala e escolhi uma das roupas que eu já tinha e usei. Como eu me senti? Normal rsrs.
Então eu lembrei das diversas vezes que eu comprei uma roupa com estilo mais de festa para usar no Natal e outra no Ano Novo e depois eu dificilmente usava elas novamente, ou seja, puro desperdício de dinheiro e de tempo.

O uso excessivo de celular.

Nessa viagem eu decidi que eu ia abandonar completamente meu celular para viver cada segundo com quem estava ao meu lado e com isso pude observar como as pessoas passam um tempo excessivo no celular, seja conversando no whatsapp ou preocupadas em compartilhar algo nos stories ou tirar fotos para postar.
Eu achava que as pessoas aqui usavam bastante o celular, pois no metro elas estão sempre lendo ou assistindo algo, mas depois de ir ao Brasil, percebi que aqui as pessoas usam muito menos, já que o whatsapp não é muito popular e as pessoas aqui são bem reservadas e não gostam de expor sua vida na internet, ou seja, o Instagram aqui é usado de maneira bem moderada (mesmo pelas celebridades e as blogueiras).

Se preocupar com o que o outro vai pensar

Eu havia me esquecido como no Brasil as pessoas colocam a vida do outro para medir muitas coisas, dando mais importância ao outro do que a si mesmo.

As pessoas parecem que estão sempre muito preocupadas com o que o outro vai pensar seja da sua aparência, da sua situação financeira ou das suas escolhas de vida.
Isso faz com que elas estejam sempre preocupadas em estar com o cabelo arrumado, unha perfeita e roupas bonitas (de preferência de marca). Mas tudo isso tem um preço, o qual eu mesma investia antes e hoje que não me preocupo mais com essas coisas, vejo o quanto de dinheiro me sobra para investir em momentos que serão lembrados por muito mais tempo que um cabelo escovado e uma blusa nova.

A vida financeira também é uma preocupação e parece importante aparentar estar sempre prospero e para isso as pessoas acabam se endividando para ter um carro, para adquirir coisas que estão na moda, para comprar uma casa (inclusive eu queria saber porque ainda existe essa cobrança de que TODO MUNDO PRECISA TER uma casa própria?).
O que talvez as pessoas não percebam é que essa cobrança além de ser uma tortura psicológica que as pessoas fazem consigo mesmas, também é um comportamento que vai exigir que você trabalhe cada vez mais para sustentar um estilo de vida que talvez você não possa (e nem precise) ter naquele momento e trabalhar mais, significa ter menos tempo para você e para quem você ama.
Aqui eu aprendi que é extremamente importante você ter equilibrio entre a vida pessoal e profissional, pois a moeda que está sempre em jogo é o tempo e ele é precioso demais, se não tivermos equilibrio, os dias passam e a gente nem vê e nem aproveita.

O fato da pessoas estarem tão conectadas com as redes sociais, também faz com que elas estejam sempre se comparando com a vida do outro, o corpo do outro, o relacionamento do outro, etc.
Esse comportamento de comparação e julgamento, alimenta tudo o que eu escrevi anteriormente, sobre se cobrar para ter uma boa aparência, não só fisica mas também de estilo de vida próspero e feliz.

No Canadá a novela passa de manhã porque ninguém se interessa, revista de fofoca devem ter duas, sendo que elas falam somente sobre a família real Britânica e as redes sociais não fazem muito sucesso, porque as pessoas não querem perder tempo acompanhando o que o outro faz, quanto pesa, se está casado ou se separou, se a roupa está adequada, etc…porque nada disso muda na vida delas. Ao invés de investir seu tempo se preocupando com o outro, elas preferem se preocupar consigo, se questionando o que gostam, como podem realizar seus sonhos, como podem resolver seus problemas, o que querem fazer, o que querem mudar em si, etc.

Como eu me senti ao voltar do Brasil para o Canadá

Nas duas semanas que antecediam a viagem para o Brasil, eu tive um pico de ansiedade absurdo e não via a hora de estar com a minha família, de ter o acolhimento e amor deles, de rever e curtir os amigos, etc.
Essa ansiedade também estava carregada de uma saudade que estava doendo a muito tempo e confesso que eu comecei a pensar que talvez essa ida ao Brasil fosse me fazer não querer retornar mais ao Canadá e ficar nos braços das pessoas que eu amo e que me fazem tanta falta.

Eu fiquei 20 dias no Brasil, foram as nossas maiores férias de 2018. Nós escolhemos especialmente o final do ano para estar com a nossa família, pois sem dúvida para nós, é a época mais dificil de estar longe deles.
Nesse período, eu pude me lembrar como eu sou verdadeiramente amada por tantas pessoas, que faziam questão de mostrar seu afeto por mim, em forma de abraço, de beijo, de comida, de passeio, de surpresa, de presente, de gargalhada…Sério, eu AMO CADA UM DE VOCÊS.
E especialmente minha mãe que fez TANTA coisa pensando em mim que eu nem sei como agradecê-la por tanto. Ela foi capaz de ir até em outro municipio para pegar uma encomenda de um queijo caseiro que só tem no nordeste e ela sabia que eu tava morrendo de vontade de comer.

Em meio a esse mar de amor, que eu sei que só irei encontrar no aconchego da minha familia, eu também obtive a resposta da dúvida que pairava na minha cabeça sobre voltar a morar no Brasil.

Quando eu mudei para o Canadá eu comecei a me culpar muito por estar longe da minha família, por não ver minhas sobrinhas crescerem, por ver minha avó chorar toda vez que fala comigo no telefone, por ter abandonado o prestigio profissional que eu tinha para ser mais uma imigrante, por estar aprendendo tanta coisa sobre auto-conhecimento/evolução e não estar perto da minha família para compartilhar e ensiná-los, entre outras tantas coisas.
Mas depois de ficar 20 dias coladinha com eles, eu percebi que tanto faz eu estar do outro lado do continente ou embaixo do mesmo teto, porque as pessoas vão passar pelo que elas precisam passar e elas vão aprender o que precisam no tempo e na maneira certa e eu não tenho como controlar isso.

Estando longe, eu falo com as minhas sobrinhas entre 2 a 3 por semana e se eu estivesse perto, tenho certeza que a correria ia me permitir vê-las duas vezes no mês.

Devido ao periodo de festas e férias, nem todos os amigos eu consegui ver, mas ainda assim vi a maioria e ao reuní-los em grupos, notei que muitas pessoas não se viam à meses, ou seja, se eu estivesse no Brasil, com certeza por conta da rotina eu também só iria consequir vê-los uma única vez no trimestre, no semestre ou até uma única vez no ano.

Sem eu perceber, essa viagem me mostrou que tudo que eu estava sofrendo por estar longe, não passava de uma ilusão. Estar no Brasil, não ia me fazer ajudar mais minha familia, acompanhar todos os aprendizados diários das minhas sobrinhas, tão pouco me fazer ficar colada o tempo todo com os meus amigos.

Eu também consegui enxergar que por mais que a faculdade, a carreira que eu conquistei, a família, os amigos tenham tido um papel super importante na minha vida, eu precisava desapegar das lembranças que envolvem tudo isso, pois elas não me servem de nada no presente. Com isso, eu não estou dizendo que o que eu aprendi foi perdido ou que eu deva esquecer as pessoas, não, eu me refiro apenas as lembranças, como por exemplo, a lembrança de um período incrível na minha carreira, a lembrança de ver meus amigos da faculdade ou do trabalho todos os dias, a lembrança de ter a familia reunida aos domingos ou no Natal, a lembrança de fazer um churrasco em casa e chamar meus amigos, de fazer um jantar para os meus irmãos, etc.

Eu cheguei a conclusão que “saudade” é algo que não existe, inclusive nem tem tradução para o inglês e eu também não podia estar sofrendo por amar minha familia, pois o amor é o sentimento mais lindo e jamais poderia causar sofrimento, então finalmente consegui compreender, que o que me fazia sofrer por estar longe, não era a saudade, mas sim o apego que sempre esconde algum sentimento, que no meu caso era o de culpa, que me traziam lembranças que me impediam de aceitar o hoje e me fazia compará-lo com o passado.
O apego pelas pessoas faz com que a gente se iluda de que temos posse das pessoas, ou seja, uma ilusão que faz com que a gente acredite que elas são nossas: MINHA mãe, MEU irmão, MEU filho, MEUS amigos e por serem nossos insconcientemente acreditamos que elas deviam estar ao nosso lado e não cada um vivendo o que querem e precisam viver.


A verdade (mesmo sendo dura e triste) é que as pessoas não são nossas, porque não podemos ter a posse delas. Todas as pessoas de alguma maneira se vão sem o nosso controle, seja porque as pessoas mudaram e o relacionamento chegou ao fim, ou porque mudam de emprego, de cidade, de escola, de país ou porque infelizmente partem para um outro plano. De qualquer forma, nada é nosso de verdade, NADA. E quanto antes aprendermos isso e desapegarmos das coisas, das lembranças e das pessoas, menos sofreremos com qualquer uma dessas inevitáveis separações que vão acontecer.
Lembre-se, que desapegar-se de alguém não significa deixar de amá-la, mas sim libertar-se dos sentimentos negativos (como a culpa) que tem prendem a ela e também libertar essa pessoa da prisão que você a colocou dentro de você.

Eu fui ao Brasil na dúvida se essa visita poderia me fazer querer ficar por lá, mas no fim, a vida em sua imensa sabedoria me fez enxergar a verdade sobre as ilusões que me faziam sofrer e com isso, eu aproveitei para me despedir das lembranças e pertences que eu ainda aprisionava dentro de mim, além de abandonar a culpa ilusória que me torturava.
Com isso, eu não só voltei ao Canadá, como também consegui trazer a outra parte de mim que eu havia deixado no Brasil e hoje, me sinto completa e inteira para viver o meu momento atual, que é aqui em Toronto.

A vida é um breve sopro e a gente precisa aproveitar o momento presente, curtindo quem está ao nosso lado naquele momento, olhando as oportunidades e alternativas que se tem ali e não as que tivemos no passado. Se tem algo lá trás que lhe impede de seguir em frente, desapegue, se perdoe e liberte isso dentro de você.

Com amor, Sil.

*créditos da imagem de capa do post: site vou na janela

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4 Comentários

  • Ana Regina

    Oi Sil, conheci seu blog através da Gaby no Canadá e vira e mexe eu dava uma bisbilhotada por aqui mas nunca tinha comentado, mas hoje passeando por aqui de novo me deparei com esse lindo texto e olha fiquei emocionada com ele. Tenho esses mesmos sentimentos, as pessoas estão mais preocupadas em Ter do que Ser melhor filho, amigo, pai ou pra si mesmos, acredito que seja um momento de evolução e que ainda entenderão que a vida somos nós que fazemos dela boa ou ruim.
    Um abraço

    • mundodasil

      Oii Ana Regina,
      Ahhh eu amo a Gaby e seu blog. Ela é uma querida!
      Que alegria ler seu comentário. Fico muito feliz que o texto tenha tocado você.
      Espero que essa mensagem também chegue como um abraço meu em você.
      Também acredito que estamos vivendo um momento de evolução, as pessoas estão se questionando sobre muitas coisas e aquelas que tem buscado olhar para dentro de si, tem encontrado as respostas que buscam.
      Muito obrigada por sua visita e seu comentário, espero ter sua cia sempre por aqui 🙂
      Bjão.

  • Lele

    Q texto lindo e profundo! Estou me preparando pra ir pro canada esse ano como residente permanente e já estou sentindo esse apego e culpa q vc fala, ainda mais pq meus pais são idosos e estão passando por alguns problemas de saude o que acaba intensificando mais esses sentimentos. No fundo sei que muito desses pensamentos são ilusões mas é difícil muitas vezes não se deixar levar por eles e acabar com uma certa melancolia perante a vida.
    Bjs!

    • mundodasil

      Oii Lerina,
      Eu imagino a ansiedade, o medo, a alegria e tantas outras coisas que você esteja sentindo nesse momento de mudança.
      O que posso dizer a você nesse momento é o que eu diria pra mim nesse mesmo periodo: aproveite cada compania, cada sabor, cada segundo no Brasil. Faça o que for necessário para o processo da mudança, mas enquanto estiver no Brasil, tente manter sua mente e coração no momento presente.
      Nos momentos de incerteza, de medo, de melancolia…pare por 5 minutos e se perdoe pela decisão de se mudar para o Canadá, pois isso, vai ajudar a desapegar da culpa.
      Desejo que você aproveite bastante sempre, onde quer que você esteja e não se esqueça, a vida é perfeita exatamente da maneira que é <3

      Beijão e super obrigada pela mensagem carinhosa.

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